Em processo

olho

Existe há pouco tempo como viúva, há 7 anos na maternidade, há 1 ano e meio na invenção, há 10 meses num amor que (para ele) era de antes; de muito antes…
Existe na escola que odiava, no curso de biologia, na filha mais nova, na casa da mãe, como filha mais velha, no jogo de tênis, na dor do nariz quebrado, na falta de sono, na escrita, no desejo de não ser mãe, no medo de não poder sê-la. Existe no atraso, na corrida para aula, no gozo, na falta dele, no corpo que cresce. Existe em Ouro Branco, em Paris, no caminho para a casa que não é sua, na desmontagem dos móveis, nas caixas dos livros, no brinquedo das crianças, na pergunta para a professora, na filosofia, na educação. Existe na história dos pais separados, no caso de 3 meses, no aborto premeditado, no aborto indesejado. Existe na capacidade de falar, na capacidade de ouvir, na não linearidade do tempo, na repetição de histórias, no imprevisível.
É pura presença.

Serra Pelada – No início era o verbo.

Corpo suporte.
Suporta o peso, o sexo sem gozo, a lama de ferro, a montanha no lombo, o desejo de alma, a esperança do outro.
Um corpo exausto, dormente, mas que sente o pulso, o ouro na veia.
Um corpo que suporta e vez ou outra aporta – numa cama que não é sua – para descansar.

[Colagens produzidas a partir de frames do documentário ‘Serra Pelada – A lenda da montanha de ouro, 2013’]

O que escoa | ecooa

teste1

Sobre o tamanho.
Qual o volume?
De onde brota?

Sobre não chorar mais.
Para onde vai o que não vira água?
Onde se absorve?

Minha avó não chora mais.
Minha mãe tirou o útero.
Minha tia será avó.
Minha avó não fez amigos.
Minha tia mente para ser feliz.
Minha mãe engordou.
Eu tenho medo do que não vou realizar.

Reserva poética, 2013.

Tessitura de um novo espaço prestes a se tornar antigo

Prestes a me mudar de cidade, no último mês que vivi no Rio de Janeiro, transformei o quarto dos fundos da casa de uma amiga em atelier. Passava os dias sozinha e olhava aquela casa cheia de texturas, ainda com curiosidade e já com saudade.
Via o que ninguém mais via: a rotina dos móveis, das plantas – e fazia silêncio para não incomodar.
Me despedi de lá com o ensaio: ‘Tessitura de um novo espaço prestes a se tornar antigo.’

Para Helena e Maria

marc

Meninas,

Pela primeira vez na vida tenho um Ipod e também um namorado roqueiro e vivemos nossos dias assim: ele me apresentando bandas, eu as coisas que a curiosidade me faz caçar.

Outro dia passamos horas escutando Life’s a Gas. Essa música realmente ocupou meus ouvidos e aquele cabeludo do Marc Bolan tratou de preencher my heart.

Descobri que fazemos aniversário no mesmo dia – eu e Marc. Seus olhos são enormes esferas d’água e, de tão vivos, às vezes o vejo piscar para mim. Se enfeitava com cores e brilhos e paetês e tecidos e um sorriso largo.
Isso é Glam Rock, garotas.
Definitivamente seríamos apaixonadas por ele.

Então anotem:
1) Pelo menos uma vez na vida namorem um roqueiro;
2) falem inglês;
3) rock é sobre amor;
4) escovem os dentes, mostrem os dentes, dêem sorrisos largos.

Carta ao mar

carta

Sobre a saudade do mar e os caminho da montanha.
Sem lamento.

Te amo mais agora,
Depois da vertigem
Depois de realizarmos a presença um do outro,
um no outro.

Gosto da tua carne, de te apalpar,
Ta tua tessitura e do teu cheiro
Ora de mar, ora do sol secando a chuva.

Gosto das tuas cores
e de quando brilha em prata
Do teu movimento de onda
Dessa água que traz e leva.

Te amo, Rio
Mas sou só minha
E você ainda será para muitos.

30 de novembro de 2014